Rindo na cara do abuso

Ontem quando me dei conta, estava assistindo novela com minha mãe. Não faço ideia de qual o nome mas passava na Globo e tinha a Tatá Werneck atuando (para quem não sabe, ela começou a ficar famosa por ter feito um programa de humor/stand up na MTV – eu adorava!). Ela faz o papel de uma moça que quer se dar bem na vida casando/tendo filho com algum moço famoso. E tem o apoio da mãe para isso.

Eu não ligo para o que as pessoas queiram usar para ~se dar bem na vida~ desde que não seja desleal e me machuque ou machuque outras pessoas. As relações são formadas por compatibilidade de muitos assuntos. Empatia sexual e por gostos, sejam eles diferentes ou exatamente iguais. Mas não é sobre isso que quero falar, essa foi apenas uma introdução.

Rolou uma cena ontem que inicialmente me fez rir mas depois fiquei triste comigo por ter rido de algo tão ruim.

A Tatá Werneck invadiu o camarim de um cantor se passando por alguém que estava a trabalho para servi-lo (esqueci o nome agora, salvo engano, era o Gustavo Lima mas não tenho certeza) pra dar em cima dele quando o show acabasse. Só de ter invadido um espaço que não era destinado a ela foi ruim (eu morreria de susto e chamaria a polícia imediatamente se acontecesse isso comigo). Quando o cara entrou, ela se atirou pra cima dele, a toalha do cara caiu – ele aparentemente tinha acabado de sair do banho pois no show se sua e etc (não lembro se ela que puxou ou se caiu pela cena ter muita movimentação), jogou o cara contra a parede e foi subindo em cima dele. Primeiro eu ri. Depois de alguns segundos eu fiquei me perguntando que merda era aquela.

Quando ouvimos a palavra estupro/abuso, geralmente associamos a alguém com pênis violando o espaço de um ser com boceta. Sei que homens também são estuprados e crianças com pênis também e pessoas idosas independente da idade, mas eles são minoria (não diminuindo o que se passa com eles, claro). E o que a novela mostrou foi ridículo. Fazer humor com abuso. Eu não sei como funciona porque não tenho pinto nem perguntei e ninguém que tenha, mas em situações de stress muito grande, não sei se o pinto de alguém fica duro e se há como um homem transar com uma mulher nesse contexto. Mas, claro, tem como o estupro acontecer de outras formas que eu não quero nem ficar imaginando.

Porra, eu fiquei puta e chocada. Cara, não tem a mínima graça alguém violar o espaço do outro e sair se jogando pra cima. Na hora, já me passou pela cabeça todas as vezes que eu me vi em espaços públicos com algum idiota enchendo meu saco, querendo colocar a mão onde não foi convidado. Eu sempre fui grossa com pessoas assim e uma amiga minha achava minhas grosserias ruins ainda. Como se por ser mulher, por mais que alguém estivesse totalmente passando dos meus limites, eu ainda devesse ser uma “Miss”. Continuar sorrindo, pedindo com a educação de princesinha para que parasse (mesmo com os sinais claros de que isso não ia acontecer quando eu quisesse – e sim quando o imbecil cansasse) e continuar lá, feliz e tranquila.

Acho que todos tem direito de dar em cima de quem quiser, a hora que julgar adequado. Mas depois do primeiro não, ter o bom senso de parar e se retirar caso julgue necessário. Me passou pela cabeça todas as vezes que alguém passou a mão na minha bunda numa festa, ou tentou encostar sem necessidade em mim, puxou meu cabelo (e olha que os tenho curtinhos – estilo “Joãozinho”). Passou pela minha cabeça as notícias que vemos de mulheres que tem os braços quebrados por imbecis em boates porque elas não quiseram beijá-los ou sabe-se lá o que que esses ogros queriam com alguém dessa forma. E passaram coisas muito piores que eu não quero registrar aqui.

Vocês que fazem de casos de abuso humor: vão se foder, caralho!

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Lib, Rad or nothing

Numa tradução livre, a imagem diz:

 
Homens feministas

 
Eu não acredito que homens possam se identificar como feministas. Feminismo sempre foi um movimento de mulheres e para mulheres. É sobre ação, é sobre determinação pessoal, e é sobre lutar pelos nossos direitos. Quando os homens pegam espaço no feminismo eles tendem a falar sobre nós. (Geralmente, homens foram socializados a acreditar que a opinião deles é a mais importante.) O que os homens podem fazer pelo feminismo de qualquer modo, é ser um aliado. Um homem que é aliado do feminismo não entra num discurso com feministas e não tenta pegar nossos espaços em círculos feministas mas sim pega seus ideais feministas e os difunde em círculos masculinos. Um homem aliado ao feminismo chama os outros homens e os mostra sua misoginia onde quer que o feminismo não consiga chegar. Se você é homem e quer ajudar o feminismo, isso é o que você pode fazer. Não para receber elogios, mas porque você é um humano decente.

Eu sou feminista mas eu só tive contato com a segunda onda recentemente. Antes eu era libfem e sequer sabia disso. Tem acontecido uns nós na minha cabeça por causa desse assunto e dessas nomenclaturas.

Eu não consigo conceber nem aceitar que todo homem é ruim simplesmente pelo fato de ser homem. A humanidade é ruim, a humanidade é escrota. Sempre enfiei na minha cabeça que nenhum ser humano é igual ao outro. Seja ele de que sexo for. Homens (e não me refiro à raça, me refiro aos machos da espécie) infelizmente foram ensinados a muitas coisas erradas desde milênios atrás (e para mim, isso é inegável). Porém, todo ser humano, seja de que gênero for, pode ser babaca. E muito babaca.

Homens são ensinados a tratar mulheres como serem inferiores, dependentes de carinho, atenção, afeto e dinheiro. Como se não pudéssemos nos virar sozinhas nunca. Isso vem sendo desmistificado à décadas (mas, se estou aqui falando sobre tudo isso como tantas outras feministas, esse assunto ainda não se tornou obsoleto e falarei sempre que tiver vontade e saco de rebater críticas).

Eu acredito que homens podem sim ser aliados e isso é ótimo. Realmente tem homens que só ouvem semelhantes e se fecham em ouvir qualquer coisa só porque sai da boca de uma mulher. Para isso que aliados servem. E não é somente porque eu sou mulher e sou feminista que estou isenta de errar. Para isso que outras feministas servem e aliados também: para criticar meu próprio feminismo quando ele falhar. Eu erro, e erro muito nesse quesito. Me sinto crua quando se trata de feminismo. Preciso ler muito ainda. E acho inclusive que homens possam ser sim feministas. Porém, não acho que a voz desse ato político deva ser deles, isso não. Como foi dito na imagem, para mim, o feminismo é um movimento que deve ser feito por mulheres e para mulheres.

Como se sentem as mulheres

Você homem, quando é assaltado por uma mulher, rapidamente pensa ‘por favor, não leve minha carteira’ ou ‘por favor, não me estupre’? É isso que eu penso. E é isso que tantas outras mulheres pensam diariamente voltando para casa depois do trabalho, da faculdade, da academia ou de um passeio.

Existem mulheres que nunca sofreram nenhum tipo de opressão ou violência e ainda assim têm medo. Outras já sofreram mas ‘felizmente’ conseguiram superar e conviver com o fato. Tantas outras, são como eu. Depois de tantos anos, continuam traumatizadas e com medo. E o medo aumenta dependendo do que tem acontecido a minha volta ou se dissipa lentamente com os dias.

Não sejam as piores pessoas do mundo. Não sejam abusadores nem agressores de pessoas inocentes. Não humilhem nem rebaixem outros serem somente por serem mulheres. Essa história já está passando da hora de terminar. Sejam humanos. Não finjam que são incontroláveis. Você não é irracional. Você não está disputando território com outros humanos. Você não precisa machucar alguém pra provar que é forte.

Você também pode ler mais aqui, que foi de onde me brotou a ideia de escrever aqui.

Feminismo desnecessárzZzzZz

Acabei de ler este texto e apesar de concordar com sua maioria, uma parte me incomodou: a que diz que Nós Mulheres de Hoje em Dia podemos exatamente escolher o que fazer.

Eu felizmente faço parte da parte das mulheres do mundo que tem uma mãe que me suporta, sempre que procurei algum trabalho eu encontrei, eu uso meu dinheiro pra comprar comida, coisas fúteis e também as necessárias. Se precisar, vou entrar na farmácia e comprar camisinhas e remédios anti concepcionais. Eu já tenho 23 anos e já tem um tempo que sou adulta e não costumo ligar pra olhares feios em relação a estes assuntos.

Minha sexualidade já está bem resolvida comigo então os outros não tem que ter nada a ver com ela nem com minhas escolhas referente a outros assuntos. Claro, eu me doo as vezes com comentários alheios, ainda não aprendi a ligar o botão de Foda-se em modo hard 24 horas por dia todos os dias da semana durante todo o ano.

Mas ao contrário de mim, existem muitas mulheres (e arrisco ainda dizer que são maioria no nosso universo) que não tem oportunidades como as que eu tive. E elas também são mulheres de hoje em dia. E olha que sou pobre, tenho que trabalhar pra pagar minhas contas senão passo fome. O meu privilégio é este. Sou clara de pele então nunca sofri racismo por exemplo. Nunca fui deixada de lado por ser preta. Nunca fui apontada nem desmoralizada por conta disso.

Eu preciso do feminismo e essas mulheres precisam ainda mais. Eu moro numa capital brasileira. Eu moro em Belo Horizonte. E se você acha que casamentos obrigatórios já acabaram ou que eles ocorrem apenas no sertão do Brasil, em lugares escondidos que ninguém sabe sequer que existe, você está enganado e você não sabe nada sobre feminismo (porque é por essas mulheres nossa maior luta). Bastante enganado e vive no mundo cor de rosa cheio de unicórnios pululando em arco íris com um pote de ouro no final.

Ontem uma colega de trabalho me disse que uma moça da rua dela foi obrigada a casar-se com o rapaz que a engravidou. Ela tem 16 anos e ainda está no colégio. Ele tem 25 e disse que não vai deixar ela estudar. Acabou a vida dela ai. Ela não conhece nada do mundo e as imagens que ela terá, serão da televisão e internet (com sorte, se o marido não a proibir também). Ela não completará os estudos, sequer cursará uma faculdade ou terá um trabalho caso essa fosse a vontade dela.

Essa mulher não teve escolha. E pessoas que sofrem esse tipo de abuso, caso realizem que estão sendo abusadas, dificilmente conseguirão se livrar de um monstro desses.

Por isso o feminismo é necessário (e por tantos outros motivos também, claro). Queremos dar voz às mulheres para que elas cuidem de seus próprios corpos e suas próprias vidas.

Meu feminismo nunca vai morrer. Se uma mulher no mundo não estiver livre, eu não estou livre. O feminismo é necessário para mim que fui “privilegiada” considerando certos aspectos cotidianos e é necessário pra quem está presa e confinada pela marido em casa; isso é cárcere privado. E é muito grave! Para quem ainda não apanhou dele (e para mim, homem que prende mulher em casa, se não bateu ainda, ele vai – e escrevo isso com dor no coração). Para todas que são sequestradas. Para todas que são estupradas. Para todas as crianças que são retiradas de seu convívio diário e levadas para outros continentes para servirem de prazer para homens adultos que acham bacana porn com esse tipo de ser.

Dizer que o feminismo não é necessário pois hoje as mulheres já tem escolha das coisas, é ABSURDO (para não dizer burro).

Is life really that fair?

Já tem mais de semaninhas que estou pior (digo pior porque sempre não estou bem mas as vezes isso se intensifica). Quanto mais eu converso com os outros, leio ou mesmo ando pelas ruas olhando com mais atenção os cantos dos muros, vejo que o mundo é horrível. A quantidade de moradores de rua que tenho visto nas ruas de Belo Horizonte, tem me assustado. Não sei se é porque tenho reparado mais mas estão aos montes nas ruas. E nesse tempo frio e chuvoso, eu fico morrendo de pena e querendo ajudar. Mas infelizmente, não posso nem consigo. Pensando com tristeza o que levou todas aquelas pessoas a irem morar daquela forma. Sentindo-se tão sozinhas e abandonadas que sequer conseguem pedir ajuda para ninguém que um dia já os conheceu.

Notícias me afetam diretamente. Cada vez que leio que alguém morreu ou que sofreu alguma violência, eu me sinto diretamente violentada. Sinto um tapa na cara e um murro no estômago.

Deletei Facebook e Ask.fm pois cansei de ler merda. E por mais que não seguisse a atualização de muitas pessoas, o chorume sempre chega. Seja alguém tentando falar algo construtivo sobre um fato ruim que aconteceu seja gente compartilhando por outras razões; eu me sinto horrível de não poder ajudar todo mundo. Queria eliminar o sofrimento do mundo, as lembranças ruins e traumas de todos. Sentir-se desesperado e sem chão é horrível, eu também não queria me sentir assim.

Eu me sentia mal inclusive por não ter grandes hobbies, por não ter tanta cultura quanto outras pessoas que eu admiro, não conhecer tantos filmes legais, tantas bandas, não ter talentos e sempre sofri internamente por isso (as vezes a barreira externa era atingida também). Mas finalmente ontem descobri o porque (e não é como se isso tivesse me feito pular de alegria). Eu realmente não tenho ânimo para nada disso. Se eu começo a ler algo, logo penso “pra que estou lendo isso mesmo? Não importa quanto eu leia e quanto conhecimento eu agregue, serei sempre inútil”. E desisto de tudo. Já tentei voltar a desenhar e foi um desastre. Me senti uma idiota com todo aquele papel e lápis com borrachas na mesa. Dessa vez comprei 48 lápis de colorir e imprimi algumas mandalas para poder passar o tempo. Mas comecei a me sentir culpada de estar fazendo isso. Eu quero passar no vestibular no final do ano e me sinto muito burra. E também triste e frustrada por ter que trabalhar enquanto eu deveria estar somente estudando, focada no que eu realmente preciso e no que realmente vai me livrar da corrida de ratos que eu vivo. Eu não quero viver assim. Na verdade, eu sequer sei pra que quero viver. Eu tenho traumas pesados que carrego desde a infância e não consigo me livrar deles. Por onde quer que eu vá, sinto uma corrente presa aos meus pés. Sinto constante vontade de morrer mas me falta coragem e me sinto ainda mais horrível por isso.

Se sentir assim é péssimo,  queria ser alguém feliz ):

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“Moral”

É muito libertador quando o momento em que você para de julgar os outros chega. O momento em que você percebe que aquela pessoa que você gosta não é uma puta por conta da roupa que usa ou do modo que se comporta ou fala, você passa a enxergar que as outras pessoas também podem ser assim. E que você também pode ser assim.

Parar de demonizar ou hiper sexualizar o corpo dos outros é um exercício para si também, principalmente. Estar bem consigo é uma complicação tremenda mas fazer com que os outros sintam-se bem consigo é excelente. É muito bom ver alguém feliz, ao contrário de mim que nunca acho que valho alguma coisa. É bom ver que alguém não sofre por ter o corpo que tem. É bom ver uma amiga ou amigo feliz com sua condição. Eu não espero mais chegar a ser assim um dia, eu já desisti.

I have morals! Me too!

Medo constante

Infelizmente dizer isso ainda é necessário. ):

Só de saber que a vida e que o mundo é terrível dessa forma, fico extremamente desconfortável e com medo. Por mim e por todas (principalmente pelas mulheres sim). Voltar pra casa a noite depois de uma festa, mesmo que acompanhada me causa medo. Voltar do curso a noite sozinha, mesmo que o ponto de ônibus seja a dois quarteirões de casa. Entrar em algum lugar desconhecido para comprar ou mesmo perguntar algo.

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Numa livre tradução, a imagem diz:
Todos merecem a liberdade de vestir-se como gostam, de sair a noite, de ficar bêbado em festas sem ficar preocupado de ser punido por isso com um estupro.

Quero ser dono do morro

Na quarta feira passada eu tive aula de Redação no cursinho e conjuntamente com o tema proposto, o professor nos apresenta alguns vídeos, redações sobre o mesmo tema que já foram feitas por ex-alunos e reportagens. O primeiro tema era uma dissertação sobre a violência contra menores e o segundo tema proposto era uma dissertação sobre a redução da maioridade penal (que já fui a favor. Hoje, sou contra).

Não é justo culpabilizar e punir jovens por erros do Estado e da Nação. Os jovens (e isso não é de hoje) não tem acesso aos itens básicos para construir uma vida digna. Os pais por muitas vezes não tem condições de prover educação de qualidade, saúde nem alimentação e assim, cria-se um ciclo vicioso. Os pais não conseguem prover e os jovens tentam buscar isso por si. Consegue de um jeito mais “fácil”, entrando no tráfico de drogas, na vida do crime com assaltos, assassinatos e sequestros. Eles terão o que podem e o querem por um breve momento, mas a culpa é de quem mesmo? Quem não está provendo o que por lei deveria ser provido?

O professor nos passou um vídeo que me emocionou na primeira vez que assisti e me fez querer chorar ontem novamente quando falei sobre para meu namorado. Um jovem que aparentava tem 17 anos, sem camisa, com uma arma na cintura presa  no bermudão e outra em uma das mãos, com o rosto coberto por uma camisa, falava sobre como era sua vida na criminalidade. Ele já havia matado algumas pessoas e almejava ser o “dono” de todas as favelas de Belo Horizonte. Esse era o melhor e mais rentável futuro que ele conseguia enxergar.

Reduzir a maioridade penal iria provavelmente colocar essa pessoa atrás das grades; Mas então, o tráfico recrutaria jovens ainda menores para fazer o mesmo que este faz. E se fosse reduzida novamente, aconteceria o mesmo, porém com crianças de 12 anos como acontece em países de Guerra Civil. Crianças ainda menores andando por ai com fuzis de seu tamanho, por vezes mais pesadas que elas próprias, matando ao léu sem ter noção do quão grave é essa atitude. Ela foi criada assim, ela foi ensinada que o correto é isso e vivendo no meio que ela é exposta diariamente, fica muito difícil que ela pense por si e consiga reverter o quadro de abusos psicológicos e violência.

E os dados que são passados a nós, são simplesmente ridículos, não há outra forma de descrever. Desde junho de 2011 o governo utiliza do valor de R$ 70,00 para definir a linha de miséria. E se apodera disso para conseguir “erradica-la” no país. Isso da vergonha. Dá raiva. Sensação de impunidade, de impotência.

Marcha das vadias

Estava lendo um texto e ele tem feito sentido para mim agora. Depois que comecei a ler um pouco mais e a conviver com pessoas feministas, foi bem rápida e óbvia a aceitação do termo pra mim. Como não seria feminista?!

Logo me identifiquei como uma e quis lutar pelas coisas que nós mulheres precisamos. E também, fui tomando conhecimento da Marcha das Vadias, que acontece em vários estados Brasileiros. Ano passado não fui por falta de companhia e este ano até que uma colega se dispôs e ir comigo porém… não quero ir mais.

Seria uma ótima oportunidade de conhecê-la pessoalmente e adoraria sair por ai com um cartaz com os dizeres “Enquanto uma mulher não for livre, eu também não sou!”. Eu sinto isso de verdade. Sinto empatia por cada mulher em cada parte minúscula que seja do Globo. Queria que todas fossem independentes, não sofressem abusos, fossem valorizadas em suas funções e não somente por terem uma bela bunda. Que não fossem mutiladas, estupradas, acorrentadas, demonizadas e espancadas. Infelizmente essa é a realidade que me cerca. E sinto que sim, enquanto ainda existir uma mulher sequer no mundo que esteja passando por uma situação degradante simplesmente pela sua condição de mulher, eu não estou livre. Ninguém ainda está.

A apropriação da palavra vadia no meu vocabulário também foi automática. Pensei que já que os homens acham que ser vadia é se vestir como quiser, se sentir bem com seu corpo e sexualidade, então eu seria uma vadia, e uma vadia muito feliz. Mas essa apropriação serviu apenas para mais uma coisa no patriarcado e na alimentação do machismo: os homens mais uma vez estão ditando que palavras eu devo usar para se referir à mim, à minha condição e à quem sou. Eles mais uma vez nos jogaram uma palavra, que é usada para designar profissionais do sexo, para nos julgar perante outros e tentar nos desmoralizar (afinal, se nós mulheres ~comuns~ já somos tidas como escória, o que diríamos das putas…). Hoje não quero mais ser chamada de puta e isso vai me ofender e inclusive vai ofender outras mulheres, principalmente as prostitutas. Mulheres usam agora essa palavra, principalmente com conotação feminista e nas Marchas das Vadias que acontecem para ser uma simbologia de libertação. Se me chamas de puta por exercer plenos direitos sobre minha pessoa, então eu sou. Mas não, eu não sou uma puta e não sou sua puta, perante sua visão do que isso representa.

Sou uma pessoa exercendo poder sobre minha própria vida. Me chamar de puta não faz com que eu seja uma. Não sou uma profissional do sexo e me travestir como uma durante um dia, não trará liberdade para mais nenhuma mulher no mundo e não fará com as profissionais do sexo sejam menos expostas aos ricos que sua profissão trazem. Apesar de essa profissão por vezes ser uma escolha, ela não exclui o fato de que a maioria não o faz por prazer. São sequestradas, estupradas e mantidas em cárcere privado em todo o mundo para satisfazer prazer dos outros.

Eu até iria hoje em alguma marcha, mas me desanimei consideravelmente por conta desses fatores que apresentei.

 

Miss simpatia (I wish)

Eu sou fechada e ainda por ter uma auto-estima ruim (sendo ainda bem otimista), sempre acho que as pessoas que estão falando comigo ficarão com sono nos primeiros 2 segundos de conversa. Então quando alguém puxa papo comigo, eu não consigo retribuir muito e acho que a pessoa está sendo apenas educada frente uma pobre coitada como eu.

No caminho do trabalho hoje, três pessoas foram simpáticas comigo e eu só consegui retribuir uma. E mesmo assim, foi um elogio a uma parte física minha, minha tatuagem. Não acho ruim receber elogios, só não sei como retribuir. Sei que obrigado serve, mas acho errado sair elogiando o físico das pessoas por ai.

E quando ela não tiver mais aquilo que o elogiador julgou bonito, ela automaticamente será feia? Não é meu caso e não pretendo retirar minha tatuagem. Pelo contrário, pretendo ainda fazer várias. Mas elogios à características físicas me deixam com um pé atrás. A pessoa não te conhece mais que superficialmente e pra se manter agradável ou te deixar mais susceptível a ela adentrar na sua vida, faz elogios assim.

A primeira pessoa foi uma senhora que tava fazendo um malabarismo na rua com a calça e calcinha enfiada na bunda. O segundo, um senhor passeando com um cachorro e o terceiro, um colega de trabalho que abriu um sorrisão logo que me viu.

Queria ser dessas pessoas que todos julgam agradáveis, que sentem falta, que queriam a companhia por mais tempo. Que sorriem fácil, são simpáticas e adoráveis. :C